Tem uma frase muito boa do Raul Seixas que significa que é melhor ser burro que sofrer pelas coisas da vida, mais ou menos isso.
Tô fudido demais porque, além de ser burro, eu sofro pelas coisas da vida.
Da minha, de amigos, do vira-lata vagante da minha área, do ratinho da minha cozinha (mamita vai matá-lo envenenado, em breve).
Com isso, a porosidade de minha sensibilidade não repele a quantidade de absurdo que vem e passa. E vou eu a buscar pandemônio na filosofia, nas idéias alheias próximas, no álcool, nas drogas proibidas pelos homens da lei que mais gosto e que menos me custam a civilidade (é isso? sou burro...). Assim o fervilhão me deixa pastando na impotência do grito inútil. Se o grito, que logo me deixa rouco mas é um berrante, é inútil, imagina tudo o que não tento calado?
Tento não me aproximar muito da atualidade.
Deixo minhas lágrimas escorrendo pelos povos incas, pelos índios que povoavam o Rio de Janeiro e São Paulo, pelos Bundas, que deram nome brasileirinho às nádegas sulamericanas, pelos igapós e igarapés que singravam minha floresta querida, reduzida a cimento e ignorantes, bestializados, pelos dinossauros (queria um de estimação, mas a porra da chuva de meteoros fudeu com tudo). E choro. Sinto a perda da cultura, a dificuldade de aceitação do diferente, desconhecido, não alinhado. Da afinidade com o silêncio humano pra que a natureza possa nos contar tudo o que viu e verá, o simples silêncio respeitoso a quem, de fato, comanda toda a balbúrdia incompreensível desde os tempos em que antropomorfizamos o inantropomorfizável! (hein? Pode ser assim?).
Ainda há pouco tempo convivi com mortes naturais e outras premeditadas de pessoas ao redor. E choro. Por estar vivo.
Não tenho escolha. O suicídio é honroso demais pra mim, que sou quase um pulha. Me resta viver.
Vou me aninhar com o vira-lata da rua ou meu pequeno ratinho azarado.
Quem sabe aprendo alguma coisa de útil com eles? Porque ultimamente meus semelhantes só me ensinam o que não consigo aprender nem apreender, talvez por estupidez, talvez por inocência ou respeito aos velhos índios que foram dizimados por acreditar demais.
Vou voltar a subir em árvores. Era dali de cima que eu achava tudo mais bonito, sem contar que é onde estão as melhores frutas.
Vou subir em árvores. Pra que as formigas andem em mim com a intimidade de um metrô de Tóquio.
Subir e escutar as árvores traduzindo o vento.
Essa sim, uma linguagem universal...
NA SOMBRA...
Vem comigo?
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Água

Roubaram a água.
Creio que já chorei por aqui sobre o desperdício dos mananciais da floresta encantada, mas ultimamente, como ando muito pela cidade, resolvi visitar os açudes e igarapés que fizeram minha infância subaquática, quase anfíbia.
SUMIRAM!
E o que restou se transformou num rastro de bosta!
Açudes inteiros aterrados e cimentados, áreas alagadiças transformadas em ruas (a Baixada da Habitasa todo ano recebe visitas do Rio Acre), igarapés que cortavam a cidade toda sumiram do mapa, sem deixar vestígios.
Alguns, como o velho CHico, resistem bravamente, virando depósito de lixo e esgoto. Apesar dos esforços hercúleos dos órgãos competentes, a ação humana invadindo e desmatando áreas de proteção permanente à beira desses leitos, acaba por transformar tudo em nada.
Há meses acompanho uma APP no Bairro Conquista. Em pouco mais de dois meses, quatro casas subiram em aterros irregulares às margens do pequeno igarapé que, como tantos outros, parece estar com os dias contados...
E o que nos sobra? CALOR!
Cimento.
Asfalto.
Sem árvores.
Sem água.
Sem frutas.
Sem peixes.
A cidade está se transformando num grande seringal, dependente de tudo o que venha de caminhão pro armazém do Seu Menino, lá dos sudestes do país.
Quando eu imaginei que entraria em um mercado pra comprar banana? Caju? Melancia?
Já pode sentar e chorar (mesmo sem ter lido nem gostar de Pau no Coelho?)
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Escuridão.

21/10/2011
Quando tem mais pessoas nas igrejas que nas escolas, é porque tem alguma coisa muito errada na condução pública da coisa.
O domínio político e social histórico massificou (a ferro e fogo) a idéia de supremacia da fé cega (e da faca, bem amolada). Contando com os bilhões de anos do planeta, a audácia do calendário cristão beira a zombaria, o escárnio. E o medo, aliado à manutenção da ignorância e reducionismo da maioria das pessoas a um saco de inutilidades, perpetua a pressão para que a imobilização social seja regra, não exceção.
Em Montreal, Canadá, apesar da forte influência cristã, tirando-se os nomes de santos nas ruas, a grande maioria das igrejas encontram-se abandonadas, e sevem de referência negativa à cidade, pelo elevado nível de consciência dos cidadãos a respeito das atitudes e posturas oficiais dos líderes religiosos. Na Holanda praticamente não há templos regulares em funcionamento...
A função educacional do Estado é mascarada e pulverizada em uma grande manobra de descrédito, péssima formação dos professores (algumas disciplinas nem formam mais docentes para a rede – vide vestibulares para licenciatura em geografia e história, por exemplo), montagem de uma grande e cara equipe burocrática e dependente, que se caracteriza pela defesa do modelo, escolas precárias, alunos desmotivados e subestimados.
Pela simples razão de que a informação causa desconforto, o conhecimento leva ao questionamento, a formação à atitude. Cultura cospe na estrutura (Marcelo Nova e Raul Seixas sibilaram bem essa loa...) e chuta a bunda dos bundões.
A diminuição de espaço e aumento da informação livre causa constrangimento em algumas situações, mas a atual posição nacional de “prosperidade” causa mais um disfarce, um desequilíbrio: a sensação de sucesso econômico que, na verdade, é um simples aumento de capacidade de endividamento pessoal, e a grande febre mundial do consumo, causa mortis da dignidade humana, aplaca a vontade, ameniza a aventura, mata a verdade. E então o povo senta. E curte a burrice sem senti-la, abraça a idiotização criticando os que se assustam e gritam.
QUEM EDUCA AMA. Não tem frase melhor para definir meu desespero...
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
TCU (TUDO CUZÃO UNIFICADO)

Pois bem.
Pois mal.
E foi?
Nem te conto...
A Ana Arraes é a nova ministra do TCU! Eleita por voto secreto, no maior colégio de bandidos e desapegados ao país de existe.
Ela é filha do Miguel Arraes, sabe, daquele time que diz que "lutou" contra a ditadura, mas quando a dita ficava dura, sentavam em cima... tanto que eterniza a família sobre a desgraça pernambucana, porque o neto (filho de Ana, a Arraia) é o atual governador daquele lixo humano e geográfico, assim condenado e condecorado graças a anos sem fio de ações da famiglia Arraia, ops, Arraes).
"A riqueza cultural pernambucana contrasta com seu nível de desenvolvimento social, superior ao dos países menos avançados mas ainda abaixo da média brasileira. Embora tenha logrado notáveis avanços nas últimas décadas, reduzindo por exemplo a mortalidade infantil em quase 50% entre 1990 e 2005[7] e a taxa de analfabetismo (para 17,6% em 2009[19]), número considerável dos habitantes do estado ainda vive abaixo da linha da pobreza (16,1% da população com renda familiar inferior a R$ 70,00 per capita por mês em 2010)[20] e seu sistema de saúde pública ainda é precário.[21] Os baixos indicadores são mais presentes nas áreas rurais e em algumas partes do sertão do estado."
Uma das primeiras frases da puta velha lôka (ooopsss, desculpa, foi erro de digitação...) foi que "deus me ajude a tomar as decisões certas...", se referindo à sua já manifesta postura de NÃO interromper obras suspeitas de desvio de dinheiro público, pois "o prejuízo é maior" (pra quem, mesmo?)
Como em diversos casos pelo Brasil a fora, onde o sistema público de comunicação é uma concessão do governo, dada sempre a políticos locais e apadrinhados, o estado deve ser comandado pelo grupo Arraia, ops, Arraes, também na área de informação. É assim com aa famiglias Sarney/MA e ACM/BA, não deve diferir muito em PE.
Sendo assim,, mais um filho da puta com salário alvitante, trabalho insignificante e aposentadoria integral pra que o povinho bunda do PÁIS DOS TROUXAS carregue nas costas...
PNC da inércia!
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
MEDA!
PÂNICA!
DESESPERA!
SACA CHEIA!
Cheguei na Floresta Encantada, Seringal Aquiry, Colocação Rio Branco, no velho oeste brazuca, e me deparei com uma cena parecida com a história do primeiro livro sobre Sir Sherlock Holmes, onde tem a descrição da romaria dos mórmons e a criação de Salt Lake City!
É proibido duvidar do poder divino.
É proibido fungar no cangote alheio.
É proibido ser normal.
É proibido querer por querer.
É proibido ter só pra desfazer.
É proibido não ser o que se deve ser.
É proibido dizer o que se pensa.
É proibido pensar o que se diz.
É proibido andar a pé.
É proibido chinelar o calcanhar na bunda rumo ao infinito.
É proibido falar que a merda fede.
É proibido ser feio.
É proibido dedo no cu (dos outros, eu acho...).
É proibido se jogar.
É proibido não ir aonde o povo vai.
É proibido achar que tem dois lados.
É proibido achar.
É proibido música feita entre os dentes.
É proibido queimar.
É proibido arder.
É proibido saber que tudo é uma bosta fantasiada de cocô!
Me divirto, mas às vezes, tenho MEDA!
PÂNICA!
DESESPERA!
SACA CHEIA!
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Política das drogas - Francisco Bosco
A política das drogas, no Brasil, nos âmbitos legal e moral, é gravemente equivocada. No plano geral, a tentativa de repressão à produção e ao tráfico, somada à criminalização do consumidor (nesse último ponto houve algum avanço), levou ao crescimento brutal de um mercado ilegal com imenso dano à sociedade como um todo. No plano moral, uma mistura de hipocrisia e estigma induz ao contato com adroga (que se torna atraente sob a névoa do interdito) e impede a instauração de um debate claro, que possa convocar a perspectiva científica (mas também a literária, sociológica, filosófica...), a fim de iluminar a experiência das drogas sob todos os aspectos: por que seu uso se confundo com a história das civilizações, que danos as diferentes drogas causam à saúde, em que princípios se deve fundamentar uma política das drogas, que experiências políticas alternativas vêm se desenvolvendo em diversos lugares do mundo etc.
Foi contra esse estado estacionário e fracassado que se criou, em 2008, a Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Demoicracia, uma iniciativa, entre outros, do ex-presidente FHC. Comclamo desde já todos os leitores a analisar o documento por ela redigido (www.drogasedemocracia.org), que apresenta ao debate públicoas conclusões a que seus estudos chegarampara que se possa estabelecer uma base para a adiscussão que finalmente deverá atingir o âmbito da política legal, alterando seu rumo. Conclamo igualmente todos a assistir ao documentário "Quebrando o tabu", dirigido por Fernando Grostein de Andrade, e que vem juntar-se aos esforços dessa comissão, expondo suas investigações e apresentando sua versão cinematográfica.
Todos sabemos, pelo exemplo de "Tropa de Elite" (1 e 2), a que nível excepcional de transformação de mentalidades chegou o ciema político no Brasil. É preciso não desperdiçar isso e aprveitar o movimento iniciado para levar ese pensamento à transformação efetiva, moral e legal, da realidade. Boa parte da nossa vida política oficial se passa num estágio pré-político de denúncias infindáveis de corrupção ou canalhismo esclarecido; mas isso não deve nos levar à desistência de experimentações políticas decisivas, sob a alegação de que não temos maturidade para tanto. Isso nos infantiliza e paralisa. É preciso que a sociedade civil pressione a política oficial na direção de uma vida política mais autêntica e propositiva.
Não sou afavor das drogas, a prion e sem qualquer ressalva, mas sou a favor de sua descriminalização. Em primeiro lugar, drogassão um problema de saúde pública, e não de ordem criminal. O princípio aqui é claro: qualquer cidadão pode ter o direito de fazer experiências de alteração de sua consciência, e deve ter o direito de configurar sua economia pulsional como bem entender, desde que esse direito não interfira, prejudicando-a de alguma maneira, na liberdade de outro cidadão.. A criminalização das droga atenta contra a liberdade fundamental do indivíduo ao tornar sua consciência e economia pulsional assuntos do Estado. Drogas são, antes de tudo, um problema de saúde privada. Estou de acordo quando se diz que são um problema de saúde pública porque se quer dizer, com isso, que ao Estado cabe o papel de educar, iluminar a sua experiência, bem como cuidar para que os danos à saúde dos consumidores sejam amenizados (regulando o consumo e a produção das drogas, fazendo diferenças entre elas, e dando acesso de tratamento aos dependentes).
Dito isso, repito que não sou a favor do uso das drogas. Mas é preciso entender por que se faz uso delas, que diferentes exepriências elas proporcionam etc. O efeito constitutivo de qualquer civilização é a neurose: vivemos todos sob imperativos morais e legais de restrição de nossos desejos. A realidade é feita de amarras firmes, em algumas civilizações mais ainda que em outras, mas, sempre, estamos lidando com pressões da realidade. As drogas são um fator que permite intervir nessa experiência da realidade, afrouxando, provisoriamente, suas amarras morais e liberando, com isso, uma carga pulsional do outro modo aprisionada. É o que faz, por exemplo, o álcool - desde que, repito, esse uso não acarrete, por irresponsabilidade, consequências danosas a outras pessoas (sou, por isso, a favor da Lei Seca no trânsito).
No meu entender, há dois paradigmas de drogas: as drogas da realidade e as droigas do real. Aquelas, como o álcool e a cocaína, atuam no sentido de transformar, por dentro, a experiência neurótica da realidade: suavizando-a, no caso do álcool, ou euforizando-a, no caso da triste cocaína. Já as drogas do real, como o ácido ou, para alguns, até a maconha, expandem a consciência até o ponto de levá-la a experimentar a realidade como uma ficção, permitindo um vislumbre do vazio, insto é, do real, que por trás dela (não) a sustenta. É uma experiência sublime e angustiosa, é a máxima sensibilidade e o Nada. Cabe ao cidadão o direito de viver ou recusar essas experiências.
É urgente desmoralizar o uso das drogas, para que se possa ter uma compreensão mais profunda e desassombrada sobre elas. Para isso, a perspectiva científica é fundamental, mas não deve ser exclusiva. A criminalização das drogas, tal como se dá hoje, produz o crime, lá onde ele, na grande maioria dos casos, não existiria. Chega de obscurantismo, chega de violência, chega de hipocrisia. É preciso ampliar, aprofundar o debate, e transformar a realidade.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
CHUVA
"Chove chuva, chove sem parar..." Sempre penso na vida e na purificação quando me desce tanta água na cabeça. O sincretismo religioso também aflora, e me vêm as divindades aquáticas e suas nuances. Mas a ordem do dia, ecológica, é a que mais choca, porque, segundo os "especialistas", estamos com os dias contados (nós, raça humana, porque esse planeta resiste a tudo, só muda a casca). Andando e reparando, sonho com o dia da vingança da água: o Largo do Machado era uma lagoa, assim como uma grande área do centro, próximo à 1º de Março e outros locais invadidos pelo progresso. O Aterro do Flamengo se incrimina pelo nome, e as antigas imagens da Lagoa Rodrigo de Freitas me fazem chorar (de ódio). "Oh chuva, peço que caia devagar..." Sempre imagino o mar e as chuvas vindo e se reestabelecendo, indeterminadamente. Aquela bacia em se transformou a praia de Copacabana, O sufoco da invasão sobre a margem do Arpoador e Praia do Diabo, as pistas de velocidade na Praia de Botafogo. Uma lagoa no Largo do Machado me deixaria mais feliz que se o Rio Carioca rompesse todas as suas amarras e jorrasse livre, límpido e fugaz do Cosme Velho até a Praia do Flamengo, de novo! "chove lá fora e aqui faz tanto frio..." Me remeto, entre ondas e banzeiros, ao desejo fluvial da Floresta Encantada! Ah se meu Seringal Aquiry tivesse sido adornado por pessoas sensatas, mantenedoras dos seus mananciais naturais de água doce e rica em alimentos. Tudo bem que minha querida Habitasa da infância, na Colocação Rio Branco, não existiria, mas, quer saber? Mil vezes ter morado no alto e caçado sapos e calangos naquele sítio de igarapés e igapós que ver, ano após ano, a agonia das águas podres de lixo invadirem as ruas das redondezas! E os igarapés que cortavam toda a cidade e foram reduzidos a pó? (não, não foram trocados por cocaína boliviana ou peruana, foram soterrados pelo asfalto que não pertence ao nosso meio amazônico! Nunca será!). E resta o discurso, às mergens do natimorto Rio Acre, de que se pensa a natureza por ali (só se for a natureza morta do dinheiro, que move os subterrâneos de campanhas, financiamentos, representação parlamentar e outras idiossincrasias). Que venaha a chuva de Noé! Pelo menos sobrarão os peixes pra nos comer as carnes e reproduzir a evolução... VIVA O TUCUNARÉ! (aaah uma caldeirada agora, com esse clima...)
NIETZSCHE 7.
O cristianismo é chamado de religião da compaixão. - A compaixão se encontra em oposição aos afetos tônicos que elevam a energia da disposição para viver: ela tem efeito depressivo. Perde-se a força quando se é compassivo. Através da compaixão, aumenta e se multilpica ainda mais a perda de força que, em si, o sofrimento já traz à vida (Em alemão, "compaixão" é Mitleiden, e "sofrimento", Leiden. "Afeto", pouco antes, é a nossa tradução para Affekt, termo que em alemão costuma ter uma conotação mais intensa, veemente (emoção, paixão) - também presente no português, mas significativamente atenuada pelas conotações mais comuns de "ternura" ou de "sentimento amoroso") O próprio sofrimento se torna contagioso através da compaixãoç sob determinadas circunstâncias, pode-se alcançar com ela uma perda total de vida e de energia vital que está numa proporção absurda com o quantuum (quantidade) da causa (o caso da morte do nazareno). Esse é o primeiro aspecto; mas há ainda um mais importante. Supondo-se que se meça a compaixão segundo o valor das reações que costuma produzir, seu caráter perigoso à vida aparece sob uma luz ainda mais clara. A compaixão se opõe de um modo geral à lei da evolução, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para o soçobro, ela luta em favor dos deserdados e condeandos pela vida, ela dá à própria vida um aspecto sombrio e questionável através da abundância de malogrados de todo tipo que conserva vivos. Ousou-se chamar a compaixão de virtude (em toda moral nobre ela é considerada fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a fonte de todas as virtudes - todavia, que se tenha isso sempre em mente, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscreveu a negação da vida em seu brasão, Schopenhauer tinha razão de fazê-lo: a vida é negada pela compaixão, é tornada mais digna de negação - a compaixão é a prática do niilismo. Repito: esse instinto depressivo e contagioso se opõe àqueles instintos voltados à conservação e à elevação do valor da vida: tanto como multiplicador da desgraça quanto como conservador de tudo que é desgraçado, ele é um instrumento capital para a intensificação da décadence - a compaixão persuade ao nada!... Não se diz "o nada": em vez disso diz-se "o além"; ou "Deus"; ou "a vida verdadeira"; ou nirvana, salvação, bem-aventurança... Esa retórica inocente do âmbito da idiossincrasia moral-religiosa aparece de imediato muito menos inocente quando se compreende qual tendência aí se envolve no mantod e palavras sublimes: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era hostil à vida: por isso a compaixão se tornoui uma virtude para ele... Aristóteles, como se sabe, via na compaixão um estado doentio e perigoso, do qual era bom dar conta, vez por outra, com um purgativo: ele entendia a tragédia como purgativo (Aristóteles, Poética, 1449b 27-28; 1435b 1ss). A partir do instinto da vida, seria realmente necessário procurar um meio de dar uma agulhada nessa acumulação doentia e perigosa de compaixão, como representada pelo caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também de toda a nossa décadence literária e artística de São Petesburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): para que ela estoure... Nada é mais malsão, em emkio à nossa malsã modernidade, que a compaixão cristã. Ser médico aí, ser impiedoso aí, manejar aí o bisturi - é o que cabe a nós, é a nossa espécie de amor à humanidade, assim nós somos filósofos, nós, os hiperbóreos!
NIETZSCHE 7.
O cristianismo é chamado de religião da compaixão. - A compaixão se encontra em oposição aos afetos tônicos que elevam a energia da disposição para viver: ela tem efeito depressivo. Perde-se a força quando se é compassivo. Através da compaixão, aumenta e se multilpica ainda mais a perda de força que, em si, o sofrimento já traz à vida (Em alemão, "compaixão" é Mitleiden, e "sofrimento", Leiden. "Afeto", pouco antes, é a nossa tradução para Affekt, termo que em alemão costuma ter uma conotação mais intensa, veemente (emoção, paixão) - também presente no português, mas significativamente atenuada pelas conotações mais comuns de "ternura" ou de "sentimento amoroso") O próprio sofrimento se torna contagioso através da compaixãoç sob determinadas circunstâncias, pode-se alcançar com ela uma perda total de vida e de energia vital que está numa proporção absurda com o quantuum (quantidade) da causa (o caso da morte do nazareno). Esse é o primeiro aspecto; mas há ainda um mais importante. Supondo-se que se meça a compaixão segundo o valor das reações que costuma produzir, seu caráter perigoso à vida aparece sob uma luz ainda mais clara. A compaixão se opõe de um modo geral à lei da evolução, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para o soçobro, ela luta em favor dos deserdados e condeandos pela vida, ela dá à própria vida um aspecto sombrio e questionável através da abundância de malogrados de todo tipo que conserva vivos. Ousou-se chamar a compaixão de virtude (em toda moral nobre ela é considerada fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a fonte de todas as virtudes - todavia, que se tenha isso sempre em mente, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscreveu a negação da vida em seu brasão, Schopenhauer tinha razão de fazê-lo: a vida é negada pela compaixão, é tornada mais digna de negação - a compaixão é a prática do niilismo. Repito: esse instinto depressivo e contagioso se opõe àqueles instintos voltados à conservação e à elevação do valor da vida: tanto como multiplicador da desgraça quanto como conservador de tudo que é desgraçado, ele é um instrumento capital para a intensificação da décadence - a compaixão persuade ao nada!... Não se diz "o nada": em vez disso diz-se "o além"; ou "Deus"; ou "a vida verdadeira"; ou nirvana, salvação, bem-aventurança... Esa retórica inocente do âmbito da idiossincrasia moral-religiosa aparece de imediato muito menos inocente quando se compreende qual tendência aí se envolve no mantod e palavras sublimes: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era hostil à vida: por isso a compaixão se tornoui uma virtude para ele... Aristóteles, como se sabe, via na compaixão um estado doentio e perigoso, do qual era bom dar conta, vez por outra, com um purgativo: ele entendia a tragédia como purgativo (Aristóteles, Poética, 1449b 27-28; 1435b 1ss). A partir do instinto da vida, seria realmente necessário procurar um meio de dar uma agulhada nessa acumulação doentia e perigosa de compaixão, como representada pelo caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também de toda a nossa décadence literária e artística de São Petesburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): para que ela estoure... Nada é mais malsão, em emkio à nossa malsã modernidade, que a compaixão cristã. Ser médico aí, ser impiedoso aí, manejar aí o bisturi - é o que cabe a nós, é a nossa espécie de amor à humanidade, assim nós somos filósofos, nós, os hiperbóreos!
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