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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma de história - O futuro do PT - Lúcia Hippólito

- Lúcia Hippólito

O PT nasceu de cesariana, há 29 anos. O pai foi o movimento sindical,
e a mãe, a Igreja Católica, através das Comunidades Eclesiais de Base.

Os orgulhosos padrinhos foram, primeiro, o general Golbery do Couto e
Silva, que viu dar certo seu projeto de dividir a oposição brasileira.

Da árvore frondosa do MDB nasceram o PMDB, o PDT, o PTB e o PT... Foi
um dos únicos projetos bem-sucedidos do desastrado estrategista que
foi o general Golbery.

Outros orgulhosos padrinhos foram os intelectuais, basicamente
paulistas e cariocas, felizes de poder participar do crescimento e um
partido puro, nascido na mais nobre das classes sociais, segundo eles:
o proletariado.

O PT cresceu como criança mimada, manhosa, voluntariosa e birrenta.
Não gostava do capitalismo, preferia o socialismo. Era
revolucionário. Dizia que não queria chegar ao poder, mas denunciar
os erros das elites brasileiras.

O PT lançava e elegia candidatos, mas não "dançava conforme a música".
Não fazia acordos, não participava de coalizões, não gostava de
alianças. Era uma gente pura, ética, que não se misturava com
picaretas.

O PT entrou na juventude como muitos outros jovens: mimado, chato e
brigando com o mundo adulto.

Mas nos estados, o partido começava a ganhar prefeituras e governos,
fruto de alianças, conversas e conchavos. E assim os petistas
passaram a se relacionar com empresários, empreiteiros, banqueiros.

Tudo muito chique, conforme o figurino.

E em 2002 o PT ingressou finalmente na maioridade. Ganhou a
presidência da República. Para isso, teve que se livrar de antigos
companheiros, amizades problemáticas. Teve que abrir mão de
convicções, amigos de fé, irmãos camaradas.

A primeira desilusão se deu entre intelectuais. Gente da mais alta
estirpe, como Francisco de Oliveira, Leandro Konder e Carlos Nelson
Coutinho se afastou do partido, seguida de um grupo liderado por
Plinio de Arruda Sampaio Junior.

Em seguida, foi a vez da esquerda. A expulsão de Heloisa Helena em
2004 levou junto Luciana Genro e Chico Alencar, entre outros, que
fundaram o PSOL.

Os militantes ligados a Igreja Católica também começaram a se afastar,
primeiro aqueles ligados ao deputado Chico Alencar, em seguida, Frei
Betto.

E agora, bem mais recentemente, o senador Flávio Arns, de fortíssimas
ligações familiares com a Igreja Católica.

Os ambientalistas, por sua vez, começam a se retirar a partir do
desligamento da senadora Marina Silva do partido.

Afinal, quem do grupo fundador ficará no PT? Os sindicalistas.

Por isso é que se diz que o PT está cada vez mais parecido com o velho
PTB de antes de 64.

Controlado pelos pelegos, todos aboletados nos ministérios, nas
diretorias e nos conselhos das estatais, sempre nas proximidades do
presidente da República.

Recebendo polpudos salários, mantendo relações delicadas com o
empresariado. Cavando benefícios para os seus.

Aliando-se ao coronelismo mais arcaico, o novo PT não vai desaparecer,
porque está fortemente enraizado na administração pública dos estados
e municípios. Além do governo federal, naturalmente.

É o triunfo da pelegada.

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